COP 30: Entenda polêmica de 'jardins artificiais' que imitam árvores em Belém
Sistema nomeado inicialmente de 'árvores artificiais' pelo governo causou polêmica nas redes sociais e é considerado controverso entre ambientalistas, paisag...

Sistema nomeado inicialmente de 'árvores artificiais' pelo governo causou polêmica nas redes sociais e é considerado controverso entre ambientalistas, paisagistas e entre a população civil. Entenda polêmica de 'jardins artificiais' que imitam árvores na cidade-sede da COP 30 Ao invés de plantar árvores de verdade, o governo do Pará instalou estruturas em formato de árvores, que chamou de "jardins suspensos", na Nova Doca, em Belém. O empreendimento é uma das obras para a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 30), em novembro deste ano. 🌳❓ Segundo a Secretaria de Obras Públicas (Seop), plantas naturais e ornamentais foram fixadas em estrutura de vergalhões metálicos que seriam descartados. Ao todo, de acordo com a secretaria, até a COP, serão colocadas 180 unidades na capital. O valor do investimento não foi informado. O sistema é inspirado em modelos usados em Singapura e foi nomeado inicialmente de "árvores artificiais" pelo próprio governo. No entanto, a iniciativa causou polêmica nas redes sociais entre ambientalistas, paisagistas e até mesmo entre a população civil; influenciadores também fizeram críticas. Árvores artificiais estão colocadas em avenidas de Belém que passam por obras Leonardo Macêdo / Ascom Seop Belém já foi reconhecida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como uma das capitais menos arborizadas do Brasil. Em paralelo, a cidade sofre com quedas de árvores centenárias, principalmente no inverno amazônico, quando aumentam as chuvas fortes. A justificativa da arquiteta responsável pelo projeto, Naira Carvalho, é de que as estruturas vão fornecer sombra e conforto nos locais onde é inviável plantar árvores reais por falta de espaço para raízes ou pela disponibilidade do solo. A ideia, segundo ela, veio do que foi implantado em Singapura. Uma das críticas questiona o motivo de não ter sido usado vasos ou até mesmo espécies que poderiam ser plantadas no local. Chega a ser caricato. Temos espécies de arbustos que produzem sombreamento, cujas raízes não são profundas e, portanto, jamais afetariam tubulações enterradas de infraestrutura ou os pavimentos. Também dariam boa cobertura vegetal, sombreamento e proteção. Possuímos árvores de pequeno porte, de espécies nativas do bioma amazônico ou exóticas. Influencer fala sobre imitações de árvores instaladas na sede da COP 30, em Belém Parques lineares e a falta de recuperação do solo e de um ecossistema Além da Nova Doca, a avenida Almirante Tamandaré, que também passa por obras para a COP 30, vai receber os "jardins suspensos". Ao todo, 80 jardins estão na Nova Doca e outros 100 serão instalados na av. Almirante Tamandaré. Ambas as obras são parques lineares, com quiosques, jardins, áreas contemplativas, espaço para eventos, playgrounds, academia ao ar livre e ciclovias. O pesquisador Juliano Ximenes, da UFPA, questiona. "Há anos o termo 'parque linear' é usado como se significasse tratar uma área urbanizada linearmente, como uma faixa estreita em torno de um pequeno rio urbano. Mas não deveria ser assim. Um parque linear deveria, no mínimo, recuperar parte da vegetação da área que chamamos de 'várzea imediata'. Vulgarizou-se o conceito", reiterou Ximenes. 🛣️ Tanto a Doca quanto na av. Almirante Tamandaré são atravessadas por canais de esgoto, que recebem tratamento e saneamento durante as obras, segundo o governo. Na cidade que vai receber o principal evento do mundo para discutir mudanças climáticas e preservação ambiental, as estratégias utilizadas nas construções podem ser o reflexo da falta de pensar a Amazônia pelos aspectos da própria região, como aponta a arquiteta Janaína Andrade. O jardim suspenso tem uma capacidade muito limitada de capturar carbono. Além disso, enfrenta problemas de manutenção complexa e um custo extremamente alto, o que torna o investimento pouco viável. Sem dúvida, devemos priorizar o plantio de árvores. 🌱 Já o professor Ximenes pontuou que as árvores são centrais para a recuperação ambiental urbana, porque controlam a umidade do ar e solo, retêm partículas poluentes e atraem fauna, o que ajuda a manter o solo fértil e úmido. "Isso, as árvores são capazes de fazer em conjunto com gramas e arbustos, nunca sozinhas." "Tudo isso revela uma contradição, pois não se trata apenas de construir suporte para plantas trepadeiras darem sombra, mas de reproduzir certas condições do ambiente na interação entre vegetação, fauna, solo, água e ar", afirmou o professor. 💸 A arquiteta e urbanista Janaína Andrade concluiu que as árvores reais trazem muito mais benefícios do que os jardins suspensos e "têm menor impacto negativo na biodiversidade urbana, enquanto os jardins suspensos, só pela instalação e materiais, já representam um gasto tão elevado que não compensa". Bem diferente das de Singapura... O projeto no qual a arquiteta Naira Carvalho se inspirou para desenvolver os jardins suspensos de Belém é o Supertrees Grove, um grandioso complexo arquitetônico futurista com elementos da natureza localizado na Marina Bay, em Singapura, no sudeste asiático. À esquerda, bosque das 'superárvores' em Singapura. À direita, o jardim suspenso, projetado pela arquiteta Naira Carvalho. Robson Daniel J. Barbosa (foto à esquerda) e Leonardo Macêdo / Ascom Seop (foto à direita) O local reúne doze "árvores artificiais" gigantescas que funcionam como jardins verticais. As estruturas têm entre 25 e 50 metros — o equivalente a um edifício de 16 andares. Elas possuem: 💡 Iluminação: à noite, as "super árvores" se acendem com luzes de LED coloridas. O momento é chamado de "Garden Rhapsody". 🌞 Geração de energia: algumas possuem painéis solares para gerar energia e sistemas de captação de água da chuva para irrigação. 🌿 Jardins verticais: as estruturas são cobertas por mais de 163 mil plantas de 200 espécies diferentes, incluindo orquídeas e samambaias. 🌉 Passarela: uma ponte suspensa chamada "OCBC Skyway" conecta algumas "árvores", o que permite uma vista panorâmica da cidade. Já em Belém, os jardins suspensos inspirados no Supertrees Grove possuem cerca de 2,5 metros, sem as utilidades e alternativas sustentáveis. "Resolveram adotar aquela solução absurda e excêntrica 'inspirada em Singapura' com os vergalhões, quando árvores dariam benefícios muito maiores do que uma imitação de árvore, de plástico ou não", esclareceu Ximenes, que também lembrou que há diferenças climáticas e ambientais entre Singapura, na Ásia, e Belém, na Amazônia. Árvores artificiais são colocadas no Parque Linear da Nova Doca Repercussão O governo deixou de chamar as estruturas de "árvores artificiais" e passou a denominá-las "jardins suspensos. "Todas as plantas são naturais e crescem apoiadas em uma estrutura feita de material reciclado", reforçou. 📢 Mas antes do termo ser trocado, a instalação das estruturas causaram polêmica entre profissionais, comunidades da região e influenciadores digitais, que se mobilizaram na internet contra a alternativa. "Em plena Amazônia, o governo do Pará resolveu plantar árvores artificiais para fornecer sombra e ventilação aos participantes da COP 30. Centenas de alternativas poderiam ser encontradas para tal tarefa, bastava consultar as comunidades tradicionais e os povos originários da região, mas isso não foi feito", avaliou o coletivo Cop do Povo pelo perfil nas redes sociais. A Seop informou que concluiu a instalação das estruturas definitivas dos jardins suspensos na Nova Doca e que os três protótipos foram substituídos pelo modelo original desenhado para o projeto, que tem um diâmetro maior no topo. Apesar de alegar que a área não está disponível para plantar árvores reais por falta de espaço para raízes e por conta do solo, o próprio governo disse que também planta árvores no local, mas não mencionou se o mesmo ocorre na av. Almirante Tamandaré. Jardim suspenso na Nova Doca. Leonardo Macêdo / Ascom Seop Governo do Pará libera primeiro trecho da Doca, em Belém. Vinicius Pinto / Ag. Pará SOBRE A COP 30, LEIA TAMBÉM: Governo brasileiro antecipa cúpula de chefes de Estado para dias antes da COP 30 em Belém Os desafios de Belém para superar déficit de leitos de hospedagem e altos preços VÍDEOS com as principais notícias do Pará Confira outras notícias do estado no g1 Pará.